∞ Não é vício

“Somos todos desertos, povoados de tribos, faunas e floras” (Gilles Deleuze, poeta francês da década de 1980)
“Dormiremos nas calçadas de cidades desconhecias, sem preocupações, sem medos” (assim eu me lembro, talvez vagamente, nesse caso peço correção à procura pessoal das palavras de Mse. Rimbaud em, Delírios I, uma temporada no inferno).
Foi entrando pela manhã bem cedo na nova cidade, o Jardineiro Idalfin.
“Rhã”, pensava…
Assobiava, assobiava, olhava aos lados e via verde. Assim: grandes árvores cercando, uma estrada vermelha de barro batido com pedrinhas miudinhas, cipós, neblina branca leve e suave.
O coração sempre na mão, pulsante…
Foi subindo a estrada vermelha de pedrinhas miudinhas, inclinando pra frente, olhando para baixo; a mente já não falava tanto.
-Que agradável! exclamou para si próprio.
Coração na mão.
“Qual seria a cidade?”
Aquele montinho em suas costas o sabia muito bem: uma tesoura de poda, adubo em sacos pequenos, sementes e mudas. Esses já haviam visto isso tantas tantas outras vezes. Já foram muitas as cidades, e agora outra mais para essas coisas.
A manhã abria a boca, e soprava. “Foi definitivo”, já estava tocado.
“Rhá, rhá…”
Riu quase em silêncio.
Chegando já a o cume e à entrada daquela velha e nova cidade, havendo só belezas em tudo, andou e ouviu:
-Ei tio..
Os seus próprios olhares olharam e viram, sim.
Eram crianças brincando com as pedrinhas miudinhas da estrada de alguma brincadeira sem nome! Três meninos e uma menina. E brincavam! Naquela hora, o Jardineiro Idalfin pensou se era mesmo um amanhecer, ou se seria até um entardecer…
-Ei tio…
Idalfin olhou ao lado para a voz, e aquele clima de uma manha fria tomou conta, e se tornou mais agradável! Agradável. O fino e antigo chapéu de palha, de abas curtas, pequena cor numa fita de paz branca, rodeava-o assim.
Segurava o montinho nas costas e diluía-se todo, era.
Havia chegado bem dentro toda a natureza de uma vez só. Seu matinho no canto da boca até parou de mastigar.
Coração na mão.
-Ei tio, que é ´mildade?
O negrinho da cor mais negra que a noite e os olhos mais brancos que a maior nuvem branca, olhava-o meio acocorado com uma mãozinha fechada cheia de pedrinhas, erguida bem alto para o céu, fazendo até algumas escorregarem por ele iniciadamente…SssSssSss plec plec, e perguntava isso para Idalfin com a boca mais escancarada e linda!
Idalfin parou, olhou nos olhos dele. Elevou.
As outras crianças já brincavam ao fundo, em um possível amanhecer ou, entardecer, sem tanto o que falar.
Tocou no rosto do negrinho de olhos de nuvens brancas ternamente, e agora já havia milhares de corações na mão…
Resolveu-se Idalfin; mais uma cidade!
Vai agora o Jardineiro Idalfin, sem saber de pronto se estava chegando ou saindo; mas chegava. Sem saber se era amanhecer ou entardecer; mas amanhecia…
“Rñ”, falou, ou pensou.
Sempre no lugar certo na hora certa. Sem tropeçar em suas próprias pernas. Era um homem confiante.
Coração na mão, Idalfin.
Coração na mão.
Afirmo. Em tempos como os de hoje, resta-nos as palavras, e o grande arado por trás de algumas; as mais. São, como uma invocação para o bem, proferidas sempre em voz alta, antes do início prévio de qualquer trabalho, assim o seja: “Em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo, Amém”, uma ocorrência fecunda de que aquele trabalho vai se realizar sobre a certeza do positivo e do realizável
Tudo remonta para certos olhares da História. Calma e mais calma nessa hora.
Acordai-vos: não é essa a História; não são esses os Lugares. O ponto final começa aqui:
Há um novo Arquivista que vos falará. Adelante!
Arquivista
Idalfin amanhece, anoitece… Certa tarde, vindo de Pureza, chega a natal no melhor estilo. De ônibus, cruzando a ponte velha. São 5 e 12. O sol começa o mergulho… sumindo no rio. Olha. Não há quem não olhe, pensa ele. Mas por um breve momento, no meio do espetáculo, Idalfin vira o rosto a seus camaradas… colegas. Como quem faz uma pausa pra sorrir aos camaradas. Inertes, todos os outros passageiros estão atentos a tudo, menos ao pôr do sol. Capturados. Como? Pergunta-se Idalfin. Não compreende, mas segue em frente. Naquela tarde, de 26 de Novembro de 2009, Idalfin sai da caverna e percebe que do lado de fora está havendo uma revolução. Essa configuração se deu porque naquele momento, naquele ponto do planeta, universo, tinha que ter um jardineiro…
Analista